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19 de out. de 2010

Parte II

Fidelidade pra mim sempre foi um tabu. O que é ser fiel a alguém, afinal? Não ter contato físico com mais ninguém? Não me interessar por outras pessoas? Não imaginar como seria a minha vida se eu estivesse com o Gustavo da padaria ao invés de com o Arthur da loja de sapatos? Fidelidade seria, então, dedicar os seus pensamentos exclusivamente a uma única pessoa – que não sou eu, aliás? E isso não seria trair a mim mesma, falando pelo lado egoísta da coisa? Bom, se querem saber, pra mim, fidelidade é pura hipocrisia.
Exclusividade, meus caros, não existe. Você olha aquele casal que está morando junto há 25 anos, tem dois filhos lindos e que trocam beijos e abraços na fila do cinema como se estivessem namorando há uma semana. E você, como uma pessoa de coração mole e perspectivas românticas que é, acha lindo e pensa que aquilo é amor eterno. Pode até ser e confesso que eu provavelmente pensaria a mesma coisa. Mas cá entre nós: você acha que sempre é assim, 24h por dia, 365 dias por ano? Acha mesmo aquele cara sempre sonhou com aquela mulher? Pensa seriamente que ele nunca deu umas olhadas para os lados, que nunca quis outra, que nunca desejou outra mulher na cama com ele – dividindo lençóis, abraços e, quem sabe, uma vida?
Você realmente acha que ela não se perguntou milhões de vezes se realmente valia a pena aquele casamento enquanto existem milhões de homens interessantes no mundo que valem a pena conhecer? Claro que sim. Isso é traição? Talvez. Cadê o caráter da unicidade? Cadê o ''você é a única pessoa que eu gostaria de ter''? Não estão aí, mas também não está o cinismo que eu detesto, que eu repudio de todo o coração. E, ainda assim, mesmo com todo esse pensamento libertador que poderia me aliviar a consciência, eu não consigo deixar de me sentir culpada.
Eu penso que, bem, não estou fazendo nada de errado, não é? Eu estou com o André e eu sei que eu o amo – acho que talvez as pessoas não saibam identificar muitos dos seus sentimentos e por vezes fiquem confusas... Mas você sabe quando ama alguém, não? Pelo menos, deveria, se o amor é mesmo esse sentimento único e indescritível – não dá para confundir: ou você sente ou você não sente. Pois bem, eu sinto. Sinto, porque já coloquei esse amor à prova uma quantidade de vezes infinita e sempre chego na mesma conclusão: não sei de mais nada, a não ser que o amo, o amo, o amo. Posso não saber o que eu quero, mas definitivamente eu não quero perdê-lo.
Eu tento me lembrar disso sempre. Desde a última vez que nos separamos – longa história, meus caros – que eu faço de tudo para não esquecer: independente das confusões que eu me meta, das indecisões que me confundam, eu não posso esquecer quem é a pessoa mais importante da minha vida. Porque eu sei que se um dia eu o tirar novamente da minha vida, o que aconteceu no passado irá se repetir: eu vou me arrepender. Mas vale a pena mesmo manter as coisas nessa situação? Até que ponto eu posso sacrificar a ilusão de André em ser plenamente amado, quando eu sei que não estou pronta para isso?
Essas coisas me irritam. O que custava cada um ter ficado no seu canto, quietinho, sem despertar paixões, dores, decepções ou ressentimentos? Penso em culpar o Heitor, não sei; não entendo bem a sua necessidade de me invadir com meias-palavras e discursos curtos, cercados de indiretas e indefinições – e que mulher resiste a um bom mistério? E meu pensamento ronda em teorias que vão desde a desistência até a entrega, e aí eu me pergunto: até onde eu posso confiar naquilo que eu sinto? E será se eu posso acreditar naquilo que eu imagino racionalmente? Ao que parece, eu sei o que é certo, claro; sei como poderia evitar todos esses dramas, ao menos aparentemente.
Mas fazer o certo quase nunca é o mais fácil. E, acima de tudo, fazer o certo requer coragem e, não me custa admitir, minha natureza covarde sempre foi o meu maior pecado.

4 comentários:

  1. Certa vez li a seguinte frase em um livro: "Nunca esquecemos o primeiro amor, mas ele sempre acaba".
    Agora comecei acompanhar a história, e já me vi confuso em relação a trama... Confesso que nunca havia pensando na fidelidade do seu ponto de vista, a infidelidade é algo confuso de aceitar quando descobrimos (e sempre somos os últimos a saber, é a velha história do marido traído...), mas pensando como você, somos infiéis o tempo todo, até com nós mesmos.


    Beijo!

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  2. Mmmm, parece que tá saindo coisa boa por aqui. Descobri hoje e vou acompanhar os próximos capítulos ;)

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  3. muito interessante teu blog, confesso que ja me confudiu, li o post e pensei que era real, depois li a descrição do blog, e vi que uma mistura, sacada legal a sua, e a construção do texto está muito boa, pode virar um livro de sucesso ^_^, parabéns

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  4. Muito bom o texto!!!
    Não sei se vai ler meu elogio pois foi em 2010 que escreveu .. mas enfim .. penso assom também. Ninguém é de ferro que nunca pensou em outra pessoa! hehehe
    Mas de uma coisa tenho certeza: Traição é a pior coisa do mundo.
    Se não quer ficar mais junto, termine. Mas nunca engane ninguém.

    mundodapoli.com

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